Todo fornecedor pequeno acha que sabe por que um lojista deveria vender o seu produto. Eu também achava.
A Rotina Kraft produz peças impressas em 3D: chaveiros, brindes, colecionáveis e itens para óticas. Parte das vendas passa por lojas parceiras, e cada uma tem no site uma página própria, com catálogo, quanto ganha em cada peça, pedido pelo WhatsApp e fotos para divulgar. Para quem já é parceiro, funciona bem.
O problema estava na porta. Quem recebe o link pela primeira vez cai numa tela com o logo e um campo: "Digite a senha que você recebeu". Antes de ver uma peça, um preço ou um nome, a pessoa precisa de algo que ainda não tem.
Por que ensaiar com uma cliente que não existe?
Entrevistar lojista custa caro para o lojista. É tempo tirado do balcão, no meio do atendimento, para responder perguntas que quase sempre saem mal formuladas na primeira tentativa.
Então separei os papéis. Um designer de experiência, que é uma sessão do Claude, ficou encarregado de entrevistar, desenhar a jornada, prototipar e testar. A lojista seria outra sessão, com uma regra só: responder como lojista. Sem mexer em arquivo, sem sugerir design, sem ajudar o designer.
Na prática, o aplicativo não deixou uma sessão abrir outra sozinha. O designer então criou um agente auxiliar com as mesmas regras para fazer o papel da lojista. A separação ficou mais frágil do que eu tinha planejado, porque os dois nasceram do mesmo lugar. Registro isso porque muda o peso do que vem a seguir.
A lojista desta história é simulada. O objetivo não era trocar gente por IA. Era ensaiar: chegar à conversa com lojistas reais com perguntas melhores e com um protótipo que já tivesse levado os primeiros tropeços.
Como se monta uma lojista simulada?
A persona partiu de dois parceiros reais da Rotina Kraft. Um deles é uma loja de brindes que expõe as peças em consignação e só acerta depois de vender. O outro é uma ótica, que compra por quantidade, revende pela internet e dá peças de brinde aos próprios clientes.
O designer juntou as duas numa voz principal e deixou a segunda como amiga:
- Renata, 46 anos, dona de uma loja de presentes e brindes em Canoas (RS). Trabalha com uma funcionária e tem uma fatia grande do faturamento em brindes para empresas. Cuida do próprio Instagram. Já se deu mal com consignação: peça encalhada, acerto confuso, fornecedor que sumiu por meses. Vive no WhatsApp e decide pelo bolso.
- Márcia, dona de ótica. Compra em quantidade, revende no Mercado Livre e dá brinde para cliente. Consignação não serve para ela.
Canoas não foi por acaso. O WhatsApp da Rotina Kraft é da região de Porto Alegre, e a lojista precisava ser alguém que plausivelmente receberia aquele link.
O que ela disse quando abriu o link?
Na primeira rodada, o designer mandou dez perguntas. Como ela escolhe um produto para o balcão. O que precisa ver nos primeiros segundos de um link no celular. O que faz confiar em alguém que nunca ouviu falar. Que contas faz de cabeça antes de dizer sim. O que faria desistir na hora.
As respostas vieram com a impaciência de quem lê enquanto atende:
"Se pedir cadastro, senha, e-mail antes de mostrar alguma coisa, eu fecho na hora."
"Quanto eu pago e quanto eu vendo. Os dois números. Não quero ter que fazer conta."
"Se a pessoa vem com papo comprido de 'nossa história, nossa missão' e eu não sei quanto custa, eu já perco a paciência."
"Foto de computador, toda perfeitinha, eu desconfio."
Ela escolhe produto por três coisas: dá vontade de pegar na mão, tem preço de impulso perto do caixa e cabe no balcão. "Cada palmo tem que se pagar." E carrega um medo específico de peça impressa em 3D: parecer brinquedo barato.
Na segunda rodada, o designer pediu que ela escolhesse uma única pergunta para mandar a um fornecedor novo. A resposta virou o título de uma seção da página:
"Se eu pegar e não vender, o que acontece? Porque a resposta me diz tudo: se o fornecedor busca, se troca, se eu fico com o prejuízo e se ele é sério ou vai sumir."
Qual hipótese caiu?
A gente acreditava que o argumento mais forte da consignação era o ganho, apresentado em porcentagem: a loja expõe, não paga nada e fica com uma parte de cada venda.
A lojista achou pouco. Em presente, ela trabalha com margens maiores, e porcentagem não diz nada para quem decide pelo bolso.
"Com [...] eu tô praticamente cedendo minha vitrine."
O que pesou foi outra coisa: não arriscar dinheiro e ter um registro que os dois lados enxergam. A pior lembrança dela com consignação era a contagem no acerto.
"Era a anotação dele contra a minha."
Aqui veio a primeira surpresa. A Rotina Kraft já oferece ao parceiro um painel em que cada venda é marcada com data e hora, e os dois veem o mesmo número. A resposta para o trauma dela já existia. Estava escondida atrás da senha.
O mesmo valia para as fotos. Ela queria imagens boas para o próprio Instagram e um orçamento de brinde que pudesse repassar ao cliente dela sem o nome do fornecedor. O sistema já tinha botões para baixar foto e copiar descrição. Ninguém de fora sabia.
Na segunda rodada, a hipótese da porcentagem caiu de vez. Começar sem investir não faz o percentual incomodar menos. O que tira o incômodo é saber que, se a peça girar, ela pode passar a comprar com margem maior. A página precisava mostrar essa escada.
Como a entrevista virou jornada?
Das duas rodadas saiu um caminho de dez passos. Os primeiros são os que decidem:
- Recebe o link no WhatsApp, no meio do atendimento, às vezes mandado pelo próprio fornecedor, sem indicação.
- Primeiros dez segundos: o que é, quanto paga e quanto vende, de onde é. "Se não me pegou na hora, perdeu."
- Escolhe o caminho: expor na loja, comprar para revender ou brinde.
- Confere as contas em três ou quatro peças, em reais, com preço de venda realista para Canoas, "não preço de shopping de Porto Alegre".
- Procura o risco: e se não vender, se quebrar, se sumir.
- Procura prova de que a pessoa existe: nome, cidade, Instagram, lojas que já vendem.
- Chama no WhatsApp. O primeiro sim acontece numa conversa, não no site.
Uma resposta inesperada: lojas da região que já vendem a peça ajudam a confiar, mas loja vizinha vendendo o mesmo produto preocupa. "Na região, mas não na minha rua."
O que o protótipo revelou que a entrevista não mostrou?
A primeira versão da página trocava a senha por uma página aberta, pensada para o celular: foto da peça na mão, os três caminhos, as contas em reais, o bloco "E se não vender?", quem faz e o WhatsApp sempre à mão.
O topo funcionou. Em dez segundos ela entendeu que era 3D, do Rio Grande do Sul e sem pagar antes. Sobre o orçamento de brinde sem a marca do fornecedor, foi direta: "Isso me ganhou."
Mas a transparência saiu pela culatra num ponto. A página mostrava, para a mesma peça, quanto ela ganharia expondo e quanto pagaria comprando. Lado a lado, a diferença ficou escancarada.
"A sensação de que o comodato é a opção para trouxa."
Palavras pequenas também pesaram. "Você só paga o que vender" assustou: "Para mim não é pagar, é repassar." Uma regra marcada como "a combinar" soou como "depois a gente vê, e lá na frente vira briga". E "cada venda que você marca fica registrada" pareceu trabalho a mais: "Marca como? Onde? No meio do movimento não vou fazer isso."
A Márcia, por sua vez, fez a conta de revenda sozinha e chegou a um resultado errado. Lição: mostrar a conta pronta, do jeito que ela pensa, em vez de deixar a dedução para ela.
A correção que criou outro problema
A segunda versão trocou "paga" por "repassa a nossa parte do que já vendeu". Separou os caminhos em abas, para que o mesmo produto não aparecesse com dois preços lado a lado. Pôs número em todas as regras do "E se não vender?". Explicou que expor e comprar são diferentes porque, no primeiro, a Rotina Kraft banca as peças, a entrega, a troca e a quebra.
"Repassa" funcionou: "Entendo na hora que o dinheiro sai do que entrou, não do meu bolso." O texto sobre a diferença não soou como desculpa, porque era concreto. A escada convenceu: "É exatamente o que eu ia fazer."
Só que as abas esconderam os brindes, que são uma parte grande do faturamento dela. "Eu não podia passar por cima disso sem ver." A correção de um problema tinha criado outro. Na versão final, os três caminhos ficam sempre à vista, como cartões, e só o escolhido se abre.
O botão "Vendido" também trouxe dúvidas novas: a funcionária pode marcar? E se esquecer num sábado corrido? Entraram duas linhas na página: "no seu celular ou no da sua funcionária" e "esqueceu de marcar? No acerto a gente conta junto, e vale a contagem".
O veredito dela sobre a versão final:
"Chamaria, sim: agora eu sei quanto ganho, que não boto dinheiro e o que acontece se não vender, então o que falta é só ver a peça na mão e o combinado escrito, e isso eu resolvo numa conversa."
Antes e depois
| O que muda | Antes | Depois |
|---|---|---|
Primeira tela | Logo e "Digite a senha que você recebeu" | Foto da peça na mão, frase de valor e WhatsApp |
Quem ainda não é parceiro | Não vê nada | Vê as peças, os ganhos em reais e as regras |
"E se não vender?" | Sem resposta | Bloco com prazos e regras, nada "a combinar" |
Medo do acerto | Painel existe, mas escondido | Painel vira argumento: um toque, os dois veem o mesmo número |
Brindes e revenda | Só dentro da página do parceiro | Três caminhos à vista desde o primeiro toque |
O que a simulação não consegue fazer?
Uma lojista simulada é boa para achar o óbvio que a gente não estava vendo. É ruim para dizer o que é verdade sobre pessoas reais.
A pesquisa sobre o tema aponta o risco com clareza. Modelos de linguagem colocados no lugar de participantes tendem a retratar um grupo como alguém de fora imagina que ele fala, e não como ele realmente fala.
A Renata soa convincente porque foi montada com detalhes de duas parcerias reais. Mas convincente não é o mesmo que verdadeiro. E, neste caso, quem perguntava e quem respondia vieram da mesma sessão. Ela pode estar certa sobre o trauma do acerto e errada sobre quanto texto uma lojista aguenta ler no celular.
Por isso o desenho tem duas etapas. A simulação limpa os tropeços baratos. Os parceiros reais decidem o que fica. Não é preciso muita gente para a segunda etapa render.
A simulação ocupa a parte da curva em que os problemas são fáceis de achar. Assim, o tempo do lojista real vai para o que só ele pode responder.
O que ainda falta?
Escrevo este texto antes da etapa mais importante. A validação com os parceiros reais ainda não aconteceu. As perguntas estão prontas, curtas, para mandar pelo WhatsApp, que é onde os lojistas já estão. Uma delas pergunta, sem rodeio, se a porcentagem da consignação parece justa. Outra pergunta à ótica o que ela olha primeiro antes de comprar para revender.
Também faltam decisões que nenhuma entrevista resolve, porque são regras do negócio: em quantos dias a Rotina Kraft busca o que não vendeu, o que acontece com peça quebrada ou furtada, em que dia é o acerto, quando uma peça que girou passa para a tabela de compra. Sem essas respostas, a página voltaria a ter "a combinar", que foi justamente o que mais gerou desconfiança.
Se os lojistas reais contradisserem a Renata, eles ganham. Este texto vai ser atualizado com o que eles disserem.
Pesquisa com clientes e IA, em novembro de 2026
Em novembro de 2026, colocar duas IAs para conversar em papéis separados leva uma tarde. O que mudou não foi a capacidade de gerar respostas. Foi a facilidade de dar regras a cada lado: a lojista não podia sugerir design, o designer não podia responder por ela.
Essa separação é o que faz a simulação servir para alguma coisa. Sem ela, vira uma IA concordando consigo mesma. E o limite do aplicativo, que obrigou a lojista a nascer dentro da sessão do designer, mostra que a separação ainda depende de quem desenha o processo.
O que não mudou: decidir o que é verdade sobre um cliente continua sendo trabalho de gente, com gente.
Uma pergunta vale mais que dez hipóteses
A Renata não existe. Mas a pergunta dela, "se eu pegar e não vender, o que acontece?", virou o título de uma seção da página, e a frase sobre a anotação de um contra a anotação do outro mudou o argumento de venda. O ensaio não respondeu nada de forma definitiva. Serviu para que a gente chegue à conversa com lojistas reais sabendo quais suposições nossas não paravam de pé.
